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Associação de Educação Financeira do Brasil

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Educação financeira em escolas do País avança 72% em cinco anos

Matéria publicado no jornal O Estado de S. Paulo

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O dinheiro vem da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro. A cédula lá produzida é feita de um papel especial antifraude, enquanto a moeda tem fabricação em aço. A poupança, por sua vez, é uma maquininha na qual o dinheiro entra e sai maior – mas só um pouquinho.

As afirmações são de uma turma de alunos com idades entre seis e sete anos do Colégio Magno/Mágico de Oz, na Zona Sul de São Paulo. Lá, educação financeira é um tema abordado em todas as idades, do berçário à educação infantil, por meio de projetos que remetem a situações do dia a dia. As atividades vão de uma mini cidade, onde os alunos simulam compras e trabalhos, à uma visita ao supermercado para discutir valores e escolhas conscientes.

Ações como a do Colégio Magno têm crescido no País. Segundo um levantamento coordenado pela Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), iniciativas de educação financeira aumentaram 72% em cinco anos. Ao todo, foram identificados mais de 1.300 projetos sobre o tema, quase metade apenas em instituições de ensino.

Segundo a superintendente da AEF, Claudia Forte, índices como mais de 60 milhões de brasileiros com nome negativado, o superendividamento dos aposentados e o baixo nível de poupança no Brasil são reflexo de uma geração que não se preocupava com a educação financeira. “Agora, a gente vive um momento no qual as pessoas estão buscando essas informações. Concluiu-se que é importante formar uma nação mais preocupada com o ato de ser coisas e não de tê-las”, explicou ao Estado.

O tema começou a ser discutido com mais ênfase em 2010, quando foi instituída a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Mas foi em 2017 que ganhou força, com a inclusão de educação financeira na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da educação infantil e do ensino fundamental.

Desde então, os sistemas e as redes de ensino devem incorporar educação financeira e de consumo em escalas local, regional e global, como uma disciplina transversal, ou seja, que não é tratada apenas em matemática, mas em outras áreas, como linguagens, história e geografia. As instituições ou redes de ensino têm até o início do ano letivo de 2020 para adequar os currículos e propostas pedagógicas à BNCC.

Na avaliação de Claudia Forte, o ensino da educação financeira trafega por todas as grandes áreas de conhecimento com muita fluidez. “É confortável abordar o assunto em qualquer que seja a disciplina, de acordo com a realidade e a idade de cada criança, desde que o professor tenha sido preparado e capacitado para isso”, resumiu.

No Colégio Maple Bear, uma visita à feira livre para falar sobre a extração da cana de açúcar no Brasil ColÒnia acabou abordando temas como poder de escolha e conferência do troco. Inicialmente, a atividade era apenas sobre História, mas no final também incluiu educação financeira. “A gente pensa junto de que maneira isso faz mais sentido para o aluno e como conseguimos unir as matérias para que seja mais significativo”, explica a mestre em linguística aplicada e coordenadora da unidade de Moema, Feliciana Amaral.

Em outra dinâmica para abordar o tema, os alunos do último ano vendem doces para pagar as camisetas da formatura. Durante o processo, eles discutem questões como orçamento, controle de venda e investimento.

Tendência mundial

A eficiência da educação financeira nas escolas foi comprovada em um projeto piloto feito pela ENEF, que contou com o treinamento de 1.200 professores, o desenvolvimento de livros didáticos e o ensino da temática para 27.000 alunos por três semestres. Depois de realizada, a iniciativa foi avaliada pelo Banco Mundial, que indicou melhora na proficiência financeira e no comportamento por parte dos alunos. A conclusão da experiência está no relatório “Educação Financeira nas Escolas: Desafios e Caminhos”, do Banco Central. “Não é para ninguém ficar milionário, é pra viver bem com aquilo que tem disponível”, ressalta Claudia Forte.

Ainda segundo o documento do BC, desde a crise financeira de 2008, estudos sobre o impacto da educação financeira nas escolas foram conduzidos em diversos países. Na Espanha, por exemplo, o documento afirma que houve incremento na consciência dos alunos sobre o valor atual dos recursos e as consequências futuras de escolhas presentes. Em pesquisa no Reino Unido, foi constatado que as habilidades cognitivas relacionadas à leitura e matemática atreladas ao aprendizado de educação financeira são fortes preditoras de bons resultados financeiros na vida adulta.

A pesquisadora Ruth Hofmann, da Universidade Federal do Paraná, explica que, no exterior, a educação financeira é abordada em aspectos práticos, do cotidiano. “A gente tem em boa parte dos países desenvolvimento de materiais didáticos falando o que é um cartão de crédito, como ler um boleto, um holerite. São muito pragmáticos na abordagem.”

Tendência em outros países, o ensino da educação financeira no Brasil tem recebido incentivo para ser disseminado. Segundo o levantamento da AEF, aumento ocorreu sobretudo nas iniciativas gratuitas, que passaram de 23% para 32%.

Exemplo disso é o Bank of America, que, em parceria com o Instituto Brasil Solidário, já conseguiu levar o conteúdo a 160 mil alunos por meio do “Projeto Jogos de Educação Financeira”, que funciona através do treinamento gratuito dos educadores das redes de ensino estaduais e municipais, com foco em jovens com faixa etária de 6 a 14 anos. A expectativa é de que, até o fim do ano, o ensino que começou no Ceará e que se dá com jogos de tabuleiro, chegue a 1 milhão de estudantes da rede pública brasileira.

“Quando a gente começa a falar do treinamento, nem entramos na questão de matemática: provocamos diálogos e conversas sobre o cotidiano. O que eles sonham ou desejam? Para isso, eles guardam ou não guardam o dinheiro? Vamos elaborando isso com linguagens ajustadas para crianças”, explica o diretor do Brasil Solidário, Luis Salvatore. Os jogos “Piquenique” e “Bons Negócios”, criados pelo grupo, visam a estimular aos alunos tomadas de decisões, cumprimento de responsabilidades do dia a dia, a experiência prática de investir e a negociação.

O projeto segue para nova etapa de expansão, envolvendo a distribuição de mais de 14 mil jogos na rede pública nacional e até em Santiago, no Chile, com um modelo adaptado para a realidade local. “Vai além da educação financeira, porque o jogo é inserido num contexto de vida real, com a troca de ideias sobre várias situações cotidianas. Os professores podem usar isso de uma maneira argumentativa para trabalhar outras disciplinas como língua portuguesa, história, geografia e ciências”, resume Salvatore.

O aumento de iniciativas de educação financeira se deu, principalmente, em escolas públicas. Elas representam 78% das instituições que tiveram ações mapeadas pela AEF-Brasil.

Em São Paulo, a Escola Estadual Cesar Martinez abordava educação financeira com os alunos antes mesmo da BNCC. Mas no ano passado, a instituição recebeu, do Banco Central, apostilas sobre o tema e dinâmicas com os alunos. “Foi um dia só com atividades do BC. Eles conversam com as crianças sobre a importância do dinheiro e a sua utilização, sobre os animais que estão na cédula, que eram da nossa fauna”, conta a professora e coordenadora Solange Aparecida da Silva. “É um programa interessante que tem que ser expandido para outras escolas”, completa.

O Banco Central tem colaborado, em diversas frentes, com a ampliação da educação financeira no País. Além de ter participado da interlocução com o Ministério da Educação para a inclusão do tema na BNCC, ele é membro do Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef). Segundo o presidente do Banco, Roberto Campos Neto, o assunto faz parte da Agenda da autarquia, não só com projetos para escolas, mas no que diz respeito ao planejamento de longo prazo das famílias.


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